26 jun, 2020

[RESENHA] Trilogia Deuses Brasileiros #1: A Fragilidade das Águas

Oi seus lindos hoje é dia de conversar sobre A Fragilidade das Águas, primeiro volume da trilogia Deuses Brasil, lançado pela Freya Editora, e que eu estava extremamente ansiosa para conferir (caso queiram o livro físico maravilhoso, nós temos desconto na loja da Freya, só usar o Cupom: AENERD5). Então sem mais delongas, bora saber o que achei da leitura.

Sumé, o deus da justiça, vem andando pela terra a centenas de anos, sendo condenado a viver entre os homens, até que a essência de sua amada Uiara retorne e assim, eles possam cumprir a profecia. Ele já não acredita que isso irá acontecer, e tem a convicção de que seu pai, Tupã, o deus maior, mentiu para ele.

Até que seu caminho se cruza com o de Lívia, a doce jovem que agora carrega em si, sem ter a menor ideia, a essência da Deusa das Águas. As almas finalmente se encontram, a atração é latente e eles precisaram enfrentar juntos inúmeros desafios para poder viver em paz novamente.

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Estava muito ansiosa para ler este livro, muito mesmo e saber como as coisas iam seguir, porque eu fiz umas primeiras impressões dele no instagram (Vocês podem conferir AQUI) e até onde eu havia lido (a editoria disponibilizou 5 capítulos pra gente) é um ponto de decisões, o que deixa a gente extremamente desesperado para ver o que vai acontecer com a história, mas admito que me senti um pouco frustrada.

Senti que a história se perdeu, o foco não foi a fantasia e sim o romance, e eu esperava muitas coisas da fantasia, é o que promete a sinopse, mas principalmente pelos elementos que são inseridos nos primeiros capítulos.

As questões da cultura indígena não foram tão bem apresentadas. Ficam muitas pontas soltas, e algumas que acabam não condizendo com o que a gente espera de personagens ligados a cultura indígena, como por exemplo o personagem principal tocar piano, e não algum instrumento que se ligue a cultura dele.

Fiquei triste porque senti que a narrativa se perdeu em alguns momentos, já que no início a gente tem uma ideia bem clara da fantasia que virá, e claro que a gente vê o romance que irá surgir, mas os principais elementos levam a gente a pensar que a fantasia é o ponto principal, mas o foco central não ficou na trama de guerra eminente que é profetizada e pela qual os personagens espera, e nem na descoberta do passado da personagem principal, afinal ela era uma deusa e agora, 300 anos depois, ela descobre que renasceu em um corpo diferente e quase sem lembranças do passado.

A escrita da autora é incrível, muito fluida e gostosa de ler, faz a gente nem sentir que está lendo muitas páginas, e eu amei isto, porque deixa claro todo o potencial de escrita que ela tem e a forma leve com que transmite o enredo, faz com que a gente fique imerso na história.

E eu realmente gostei da escrita dela, mesmo que eu tenha enfrentado alguns problemas com certas questões, que parecem pequenas, mas que realmente incomodam e que precisam ser trabalhados de outras formas, porque são assuntos delicados como:

  • Estereótipos da mulher preta, que são apresentados desde a forma como a personagem lida com seu rosto, sua cor quando pega sol ou não, mas principalmente, quanto ao seu cabelo que em diversos momentos é tratado como “juba”. São questões que nos estamos acostumados, falas que são comuns, mas não quer dizer que são inofensivas, quando a gente vê mais de perto, percebe o quanto do racismo estrutural está entranhado em nos.
  • Gordofobia, e aqui entra um tema delicado, porque realmente não são todas as pessoas que percebem isto. A personagem principal tem um relacionamento meio toxico com a comida, porque todas as vezes que ela acha que esta comento muito ela pensa que irá engordar, ou que irá “sair rolando”, as formas do corpo dela, que são na verdade o corpo brasileiro comum, são um ponto que ela sempre destaca. E ainda, o personagem principal, Raoni, reforça que ela engordou, e quando compara o eu do presente com o eu do passado, ele tem dificuldades de aceitar que são a mesma pessoa, porque o corpo delas é diferente, como se não importasse a essência delas, que é a mesma, mas sim o fato de que o corpo não é o mesmo, como se corpo não fosse só uma carcaça, e que ele importasse mais do que a essência da Lívia, que é a mesma da Uiara. O que, novamente, acaba reforçando os estereótipos padrões da sociedade que acabam mesmo levando as mulheres a terem uma relação toxica com a comida.
  • Relação de poder, o Raoni está a todo momento querendo e fazendo o possível para demonstrar que ele é forte e poderoso, que ele consegue as mulheres com base nas posses que ele tem, que a Lívia é diferente porque não se importa se ele tem um Porche ou não, mas independente disto, ele é um homem que quer se mostrar poderoso com base nos bens que ele tem. O que acaba por “embranquecer” o personagem, que é indígena, mas que se apoia e se reforça socialmente com todos os elementos que são clássicos dos brancos e seus estigmas sociais de poder.
  • Posse como um ideal romântico, o Raoni acaba sendo o clássico macho hetero com espirito territorialista. Ele trata a Lívia/Uiara como dele, de forma que o relacionamento dela com outros homens, ainda que em nível de amizade, acabam sendo motivo para briga. E ai nós temos as crises de ciúmes, os momentos de brigas que declaradamente reforçam que ele quer “possuir” ela como um objeto, e que traz mais do que estamos acostumados nos livros de romance: a normatização da posse como um ideal romântico, como se a felicidade estivesse diretamente ligada a perspectiva de pertencer a alguém que não seja você mesmo.
  • Personagens que nunca aparecem, outro ponto que é importante destacar, é que a Livia fala em diversos momentos que a família é extremamente importante, que a melhor amiga é como uma irmã e auxilia ela no pagamento das contas, e o principal, que ela sente muito a data de todos eles. Mas aí, em nenhum momento nós temos sequer uma troca de mensagens entre eles, pra uma pessoa que tem problemas de saúde é uma família apegada, mas a gente não resentía sequer uma ligação da mãe para saber se ela está bem. Então eu senti muito a falta de diálogos com as pessoas que ela ressalta a todo momento que ela ama.

Alguns dos problemas que foram encontrados na leitura são realmente imperceptíveis, nos do Equipe Nerd lemos ele juntos, então nós tivemos inúmeras discussões sobre os pontos que foram incômodos em comum. Não é que a história é ruim, mas ela apresenta pontos que precisam de atenção, principalmente para quem luta todos os dias contra estes estigmas.

A trama e o enredo dos deuses indígenas é realmente incrível, é um elemento que tem tanto potencial como as grandes histórias que nos amamos (como Noivos do Inverno e Filhos de Sangue e Osso), porque é original, é forte e cativante, mas infelizmente, ao menos neste primeiro volume, ele não foi bem explorado.

O livro físico está maravilhoso, com uma edição perfeita, com 0 defeitos mesmo. A capa está linda e impecável, com um efeito verniz, a diagramação é primorosa! Com efeitos nas páginas, parece até folha de revista e muito gostosinha de pegar. A fonte está muito confortável para a leitura, e a edição ficou realmente impecável.

Embora eu tenha tido certa frustração com a leitura, ainda quero saber como as coisas vão ficar e espero que no próximo livro eu possa ver mais do que eu estava esperando, e algumas mudanças também, porque é uma história que tem muito potencial, principalmente por causa da cultura indígena, então eu verdadeiramente espero que estas questões se modifiquem nos próximos volumes.

Título: A Fragilidade das Águas Série: Deuses Brasileiros Páginas: 166| Autor(a): Vanessa Duarte  Editora: Freya | Ano:2020

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2 Comentários

  • Avatar
    Koldney
    julho 01, 2020

    Essa é uma das resenhas mais claras e objetivas que eu li em muito tempo. Eu também li a obra, e pelo jeito saber identificar essas problemáticas citadas é para poucos, ou então as pessoas não estão se sentindo incomodadas com tudo isso, o que me deixa bem triste.
    Concordo com TODOS os pontos que você citou, e gostaria muito que todos que já leram o livro viessem ler sua resenha e relesse a obra, quem sabe assim eles já não teriam uma visão diferente né?

  • Jéssica
    Jéssica
    junho 26, 2020

    Eu quero dizer eu te venero viu! A sua consciência ao fazer esses apontamentos sem NUNCA ofender a autora e deixando claro que são questões a serem observadas com mais cuidado e nada mais que isso é realmente o que me faz te admirar todo dia um tiquinho mais ♥